...E ela descobriu o sabor dos primeiros versos. Aqueles sentimentos que brotam dentro do peito e de repente vêm àquela necessidade de deixar guardado em algum canto do móvel do quarto.
Não fazia idéia do por que de todo aquele sentimento. Talvez, um olhar de algum garoto do ginásio, um beijo na face um pouco mais demorado daqueles olhos inebriantes que lhe tiravam o pensamento da realidade em busca de um sonho encantado.
Mas alguma coisa estava por começar. Uma fase inteiramente nova numa vida tão introvertida.
O que seria tudo aquilo?
Passaram-se alguns anos, e aquela menina havia guardados inúmeros escritos que sem querer entulhavam uma caixa de sapatos revestida de um papel de presente cor-de-rosa com detalhes de corações prateados.
Eram tantas folhas, que se perdeu onde tudo aquilo deu início. - Quais os primeiros versos?
- Quando foram escritos? E ao reler um a um, um fato lhe chamou a atenção; não havia versos enamorados, nem cartinhas secretas que nunca foram entregues; apenas relatos de um cotidiano de uma adolescente cercada de gente e numa solidão, onde suas confidentes eram meras folhas de papel.
Os descabidos diziam que eram bobagens, coisas de quem não tinha o que fazer.
E mais alguns anos se passaram. Aquela menina, adolescente, agora mulher, namorou, chorou, sorriu, viveu ao seu modo todos os sentimentos, todos os medos, mas nem todos os desafios.
Sempre muito protegida, e ao mesmo tempo desmotivada por aqueles que deveriam lhe jogar para a vida, lhe mostrar que havia aquela necessidade de buscar o novo, de “correr atrás”, de alcançar objetivos.
Mas a inconsciente proteção familiar a coibiu de ir a luta. Tinha tudo a mão, nada lhe era negado, a não ser, aquele colo que toda menina precisa. Um afago, um abraço, um beijo de boa noite, um momento de ouvir: -Filha, nós te amamos!
E toda essa ausência que teve para si, derramava em amor e carinho para aqueles que conviviam da porta para fora.
Talvez, para resgatar aquela necessidade de fazer algo por alguém, aquilo que não faziam por ela. A todos dava a atenção que precisavam. O “não” estava fora de seu dicionário da vida. Havia sempre um tempo, uma mão, uma palavra. Ela sabia o quão importante era sentir-se amado.
E a vida foi correndo. Como todo ser humano teve suas alegrias e suas decepções. Tentou fazer família, mas recebeu em troca anos de traição. Jogou tudo para cima, queria ser apenas ela e mais ninguém. Sozinha, tentar alcançar seus sonhos, fazer o que seguia seu coração.
Mas a vida lhe foi ingrata.
O que parecia ser o começo da libertação tornava-se um poço cada vez mais fundo. Recebera as costas daqueles que lhe deram a vida, a negação daqueles que sempre a tiveram pronta para tudo...E foi se enclausurando cada vez mais num mundo patético onde agora, nada tinha razão de ser. Abateu-se de vez na chegada da maldita chaga que lhe queria levar o resto de vida que vinha lentamente vivendo.
Foi-se a Fé, a esperança de tudo aquilo mudar. Deus não mais existia naquele coração.

                                                                                                            ..........Ela venceu.........

Passou pela chaga, venceu as tantas síndromes que lhe cercavam. Por si e para si, sem provar nada a ninguém. Estabelecera metas que só ela poderia buscar. Engatinhou por novos caminhos, foi se reerguendo aos poucos, buscando aprender meios de sobreviver.
Afinal, lhe privaram de tantas coisas, mas não da sua força de vontade, não de sua criatividade, não de seus dons.
Nesse novo caminho, conheceu pessoas maravilhosas que não se cansaram em lhe ensinar o que sabiam; de lhe mostrar que se cresce aperfeiçoando o pouco conhecimento.
Ensinaram-lhe que a amizade é partilhar o que sabemos, é doar o que criamos, é dar, no mínimo, metade do que temos. Que o amor entre um homem e uma mulher pode nascer entre dores e tristezas e que mesmo cansados de lutar pela união, o amor perdura a tudo. Que mesmo que a vida seja dura conosco, vale a pena se temos quem nos ame e quem amamos.
-Aqueles versos?
Ela ainda os escreve; alguns continuam no anonimato, esperando um dia, talvez, num Canto da Poesia, relatar as lágrimas dos momentos de uma mulher de sonhos. Outros declaram seu amor incondicional que permanece cada vez mais vivo, mesmo numa larga distância, mas que dá a ela toda a energia para viver dia-a-dia e quem sabe ver realizado o sonho de uma vida real.
Enquanto isso, ela apenas agradece aqueles que admiram e reconhecem o seu trabalho, guardando cada carinho que lhe é dado.
Quisera ela pudesse todos os dias, dar um beijo e um abraço individualmente, mas ela sabe que os amigos estão dentro do cada coração, mesmo que beijados e abraçados em pensamento. E Num Canto da Poesia, cada um tem o amor e carinho que ela oferece de todo coração.

 

 

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